
O grupo Preserva Betel, formado por moradores do bairro Betel, em Paulínia, intensificou sua mobilização contra o traçado atualmente proposto para a rodovia Contorno Norte de Campinas, projeto apresentado pela Concessionária Rota das Bandeiras. A iniciativa surgiu após moradores da região identificarem possíveis impactos ambientais, sociais e patrimoniais que podem afetar diretamente o bairro e áreas de relevante interesse científico e ecológico.
A mobilização começou em dezembro de 2025, quando proprietários de imóveis rurais do bairro receberam visitas de representantes da concessionária solicitando autorização para a realização de estudos ambientais em suas propriedades. A ação levantou preocupações sobre possíveis desapropriações futuras e motivou a organização da comunidade.
Em abril de 2026, moradores criaram um grupo de WhatsApp para compartilhar informações e discutir o projeto. Atualmente, o grupo reúne cerca de 600 participantes e deu origem ao Preserva Betel, coletivo que passou a atuar de forma organizada na análise técnica da proposta e no diálogo com autoridades públicas.
Desde sua criação, o grupo elaborou diversos documentos para embasar seus posicionamentos. O principal deles é o relatório técnico intitulado “Contorno Norte de Campinas e os Impactos Socioambientais no Bairro Betel”, composto por 52 páginas. O estudo reúne argumentos que questionam o traçado atual da rodovia, apontando, entre outros aspectos, que o percurso previsto seria aproximadamente 40% mais longo do que rotas já existentes entre os mesmos pontos.
O documento também destaca possíveis impactos sobre instituições de ensino localizadas no bairro, como a Escola Técnica de Paulínia (ETEP), a EMEF Professor Domingos de Araújo e a Escola Municipal Atílio Bardin, que estariam em área de influência direta da futura rodovia. Outro ponto levantado refere-se aos riscos para o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, especialmente em relação ao Campo Experimental, à Coleção de Plantas Medicinais e Aromáticas — acervo genético construído ao longo de quase quatro décadas —, além de áreas de reflorestamento e nascentes.
O relatório também aborda possíveis interferências na Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Mata de Santa Genebra e em corredores ecológicos da região, além de apresentar um levantamento de áreas contaminadas existentes no entorno do traçado proposto.
Como parte dos trabalhos desenvolvidos, o Preserva Betel realizou uma pesquisa de opinião em abril de 2026, ouvindo 527 moradores de 17 localidades do bairro. Segundo os dados apresentados pelo grupo, 90,5% dos entrevistados rejeitam o traçado atual ou defendem alterações no projeto. Outros 93,4% acreditam que a rodovia poderá reduzir a qualidade de vida na região, enquanto 97% demonstram preocupação com o aumento de ruídos e da poluição sonora. O levantamento aponta ainda que 83% dos domicílios participantes possuem crianças e/ou idosos, públicos considerados mais vulneráveis aos impactos decorrentes da obra.
Além da produção de estudos e pesquisas, o grupo protocolou requerimento junto à Prefeitura de Paulínia solicitando posicionamento oficial contrário ao traçado apresentado e apoio técnico para a busca de alternativas que minimizem os impactos sobre o bairro. Também foram produzidos materiais informativos distribuídos à população em ações de conscientização realizadas na comunidade.
Em suas manifestações, o Preserva Betel afirma que não é contrário ao desenvolvimento regional nem à melhoria da infraestrutura viária. O grupo defende, entretanto, que uma obra dessa magnitude deve ser precedida de ampla análise técnica e avaliação de alternativas, considerando os impactos sociais, ambientais, patrimoniais e jurídicos identificados ao longo dos estudos realizados pelos moradores.

