Os registros de violência doméstica contra mulheres sofrem uma escalada alarmante em dias de jogos de futebol no Brasil, impulsionados pela combinação de tensões esportivas, consumo de álcool e o crescimento das apostas online. É o que revela a segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, lançada em agosto de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A pesquisa, que cruzou boletins de ocorrência de cinco capitais brasileiras entre 2023 e 2025 com o calendário dos principais campeonatos do país, acendeu o alerta vermelho nas autoridades ao constatar que os casos de lesão corporal dolosa saltam 28,8% e as ameaças sobem 27,4% quando os times entram em campo.
O Perfil das Vítimas e o Peso da Subnotificação O relatório aponta que o impacto do calendário esportivo é ainda mais cruel para a população jovem. Mulheres na faixa de 15 a 29 anos são as principais vítimas, registrando um aumento de 44,4% em ameaças e lesões corporais nos dias de partida.
O levantamento também joga luz sobre as desigualdades estruturais no acesso à Justiça. O incremento porcentual de denúncias foi significativamente maior entre mulheres brancas (alta de 36,2% em lesões) do que entre mulheres negras (23,2%). De acordo com os pesquisadores do FBSP, a diferença não indica que mulheres negras sofram menos violência, mas sim que enfrentam barreiras severas para denunciar, como o racismo institucional e a saturação de um cotidiano violento que silencia novos registros.
O Futebol como Catalisador, Não como Causa Especialistas alertam que o esporte em si não gera a violência, mas atua como um potente catalisador de comportamentos machistas já enraizados na sociedade. O ambiente de forte apelo emocional, somado ao abuso de bebidas alcoólicas e à frustração financeira decorrente das apostas esportivas, cria o cenário ideal para que agressores descarreguem suas frustrações dentro de casa. O estudo monitorou de perto as dinâmicas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre.
Da Arena para as Leis
Diante do agravamento dos dados — que superaram os índices da primeira edição da pesquisa —, o debate migrou dos estádios para a esfera pública. Na esteira do relatório, a Prefeitura de São Paulo intensificou campanhas de conscientização em grandes arenas.
Enquanto isso, em Brasília, o Projeto de Lei 4.842/2023 ganha força no Congresso Nacional. O texto prevê a obrigatoriedade de inserção de mensagens de enfrentamento à violência doméstica durante as transmissões oficiais de rádio e TV e nos telões dos estádios, transformando o horário do jogo em um espaço de acolhimento e denúncia.